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Segunda mãe

Martha Medeiros

Antigamente uma mulher sentia calafrios só de pensar em ser avó. Com total razão: era o passaporte para o túmulo. Cabelos brancos, cadeira de balanço, tricô, um gato enredado nos pés: xô, pesadelo. As avós de hoje trabalham, viajam, fazem exercícios, saem com as amigas – gatas são elas! Conheço dezenas de mulheres atuantes que são avós e não carregam nas costas o estigma da velhice. Adoram seus netos mas seguem tendo uma vida produtiva e livre de estereótipos.

Uma vez escrevi uma crônica sobre a sogra do meu marido: pois hoje dedico esta crônica à avó das minhas filhas, a avó dos sonhos de qualquer menina. Uma avó disponível, afetuosa, sorridente, bonita e louca, no melhor sentido da loucura. Inventa brincadeiras, conta histórias originais, encara o teatro, cinema, shopping, parque, praia, jogos. Uma amigona para todas as horas e uma segunda mãe quando a primeira está inoperante: busca no colégio, orienta, leva pra dormir na casa dela. Casa de vó é o Sheraton de qualquer criança.

Algumas são amargas, reclamam de dores, estão cansadas pra tudo. Compreende-se, a vida não é fácil. Mas ranzinzice, hoje, não. Salve as avós felizes, as avós que curtem a vida e passam esta energia boa para os filhos de seus filhos. Geralmente foram chatas quando eram mães: que mãe não é chata? Vá escovar os dentes, junte as roupas do chão, largue este telefone, coma tudo o que tem no prato. Coronéis, generais, sargentonas. Alguém tem que fazer o serviço sujo, já que papai costuma ser condescendente com a bagunça doméstica. Mas, uma vez avós, não querem mais saber deste manda-e-desmanda. Passaram o bastão. Agora são cúmplices da desordem. Viva o refri, viva os filmes de terror, viva a falta de horário!

Se hoje as mulheres estão mais independentes e conciliam a maternidade com uma vida turbinadíssima, devem muito às suas próprias mães. Para cada advogada, médica ou empresária que é vista embarcando com o maridão para umas férias de 10 dias, há uma avó segurando as pontas com a criançada. Merece um belo presente, e capriche, não vá trazer toalhinhas pra bandeja ou bonequinhas de porcelana. Avós gostam de hidratantes, camisetas, livros de arte, maquiagem, botas.

26 de julho é dia delas. As imprescindíveis.


Domingo, 27 de julho de 2003.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.